1902. O cinema ainda engatinhava com os curtas dos Irmãos Lumiére, reconhecidamente os pais da sétima arte, quando um ex-mágico fez suas próprias regras, ralizando um filme ao qual podem ser atribuídos muitos títulos de “primeiro”. Para começar, é o pioneiro da ficção científica, baseando-se em um livro de Júlio Verne para tirar de sua literatura pop as referências e visuais que são padrões até hoje na realização do cinema. Mais ainda, é a narrativa mais complexa de sua época, contando com um número surpreendente de unidades dramáticas e realizando uma encenação teatrak que não precisa abandonar as possibilidades de uma arte como o cinema para sê-lo.
Como ex-ator de teatro, Meliés abusa da linguagem dos palcos. Como ex-mágico, estabelece os primeiros truques de continuidade e efeitos especiais da história do cinema. E, por fim, como cineasta, demonstra uma notável capacidade de organização de linguagem e encenação, realizando um caos controlado que, daí em diante, passou a ser rotina nos cinemas.
Deliciosamente surreal, a história envolve um grupo de cientistas realizando uma viagem ao satélite natural da Terra, encontrando por lá os mais estranhos fenômenos e tendo que fugir de uma população nativa e selvagem. A marca de Verne é impressa tanto quanto a de Meliés, fazendo dos oito minutos do filme uma experiência divertida, reveladora e, em alguns momentos, até tocante. É a primeira demonstração de que clássicos precisam ser, mesmo, eternos.
Porque se, como revolução, Viagem a Lua será eterno, como cinema, o filme envelheceu bem melhor do que se esperava.
no 1001
Viagem a Lua (Voyage dans la Lune, França, 1902) 14 min. Mudo P&B.
Direção: George Meliès.
Produção: George Meliès.
Roteiro: George Meliès, baseado no livro Viagem a Lua de Julio Verne.
Fotografia: Michaut, Lucien Tainguy.
Elenco: Victor André, Bleuette Bernon, Brunnet, Jean D’Alcy, Henri Délannoy, Depierre, Farjaut, Kelm, George Meliès.
… Aqui, Meliès cria um filme que merece lugar de destaque entre os ícones da história do cinema mundial. Apesar do estilo surreal, Viagem à Lua é divertido e inovador, conseguindo combinar os truques do teatro com as infinitas possibilidades do cinema… (Chiara Ferrari)